13/01/2009 Qualquer pequeno ou médio empresário que conseguiu crescer e ampliar os seus negócios deve ter enfrentado desafios para administrar os interesses conflitantes de sócios ou mesmo de outros interessados na empresa, como fornecedores ou clientes. O conceito surgiu na primeira metade dos anos 90, em grande parte por pressão dos acionistas que perceberam a necessidade da criação de novas regras que os protegessem de eventuais abusos da diretoria ou dos conselhos de administração das empresas. Mas os princípios que surgiram a partir desse movimento extrapolam em muito temas de interesse exclusivo das sociedades anônimas. "A governança corporativa deve ser seguida por qualquer empresa, e há cada vez mais cobrança para que elas adotem esses princípios", avalia Sidney Ito, sócio líder de Governança Corporativa da empresa de auditoria e consultoria KPMG. Segundo ele, os critérios da governança servem não só para proteger os direitos de todos os donos do negócio, independentemente da participação de cada um, mas para deixar claras as funções que ocupam na empresa. A primeira dica é não confundir as figuras de proprietário e gestor. "Deve haver equilíbrio entre os dois papéis", diz Ito. Segundo ele, mesmo quando o dono do negócio é presidente da empresa, não deve interferir constantemente na gestão realizada pelos profissionais que contratou. Se o dono não concorda com alguma decisão ou situação, acaba passando por cima da equipe. "Como o proprietário interfere, os diretores, gerentes ou supervisores abaixo dele acabam ficando em uma zona de conforto, em que não precisam tomar decisões", explica. Como resultado, a equipe pode também ficar desmotivada. Outra regra importante é criar a prática de monitorar os resultados da equipe de gestão, uma vez que o proprietário passou a delegar tarefas e responsabilidades. "Nesse sentido, é muito importante ter bons relatórios gerenciais, que garantam que o dono se afaste da gestão do cotidiano mas mantenha o controle esses relatórios não implicam investimento ou burocracia: podem ser até uma folha de papel escrita à mão", afirma Ito. Para ele, qualquer empresa precisa ter orçamento e usar a contabilidade para tomar decisões. Na maior parte das pequenas empresas, o executivo da KPMG diz que não houve o "aculturamento" para se usar a contabilidade estrategicamente, como indicadores de rentabilidade, controle de custos e formação do preço de venda de um produto, por exemplo. "Para dar esse passo, partir para os relatórios gerenciais e adotar um controle efetivo sobre as finanças da empresa, é preciso sentar e colocar no papel: onde a empresa quer chegar? Só a partir daí é possível transformar essa meta em orçamento", descreve. Os princípios da governança corporativa estão sendo adotados cada vez mais pelas pequenas e médias empresas. Mesmo aquelas que no passado não se preocupavam com isso estão mudando de cultura, segundo Ito, especialmente por conta de um sistema tributário mais rigoroso e de novos interessados olhando para as PMEs brasileiras, como os fundos de private equity e venture capital, que investem até em empresas iniciantes. Para as companhias de pequeno e médio porte, Ito sugere que a adoção de práticas de governaça comece seguindo quatro princípios básicos que valem para companhias de qualquer tamanho. O primeiro deles é garantir a eqüidade de direitos e deveres entre todos os proprietários e/ou sócios do negócio, independentemente se eles são ou não os administradores do negócio. "O segundo é a transparência das decisões, comunicando-as claramente para que todos os envolvidos saibam como o negócio está sendo conduzido", diz ele. Depois, é preciso estabelecer um sistema de prestação de contas dessas decisões. Por fim, a empresa deve adotar uma responsabilidade corporativa. "Esse princípio indica que os gestores não podem se preocupar apenas com o lucro imediato, mas sim com o longo prazo, em manter a longevidade da companhia", explica Ito. Nada mais importante para enfrentar momentos turbulentos como o atual. Fonte: Gazeta Mercantil |